Era uma vez um homem chamado “Seu Santo”. Ninguém sabia de onde ele tinha vindo. Nenhuma informação sobre suas origens. Dizia muitas coisas de muitas pessoas e de alguns lugares. Impossível era saber sobre a realidade do que estava dizendo. Interrogado, “Seu Santo” respondia de tal maneira que era impossível avançar no diálogo. Só ele tinha o domínio da realidade irreal que construíra como mundo para sustentar a vida que vivia. Uma vida vivida numa realidade que não existia. Certamente, por isso, transitava pelas ruas fazendo gestos que não correspondiam aos diálogos estabelecidos com os outros. A bica d’água da pocilga da escola servia-lhe sem tocar o núcleo de sua dignidade. Lá era a mesma coisa de qualquer outro lugar que se poderia considerar mais digno para uma pessoa lavar sua roupa ou se banhar. Cada pessoa tinha o nome que ele lhe queria dar. Dirigia-se a dona Efigênia, a quem elegera como sua amiga, talvez por ser a cozinheira na escola, chamando-a de Dona Maria das Dores. José para ele era o João para todos os outros. Seu poder próprio de lidar com a realidade lhe conferia, segundo seus parâmetros, o direito de nomear do jeito que quisesse cada coisa e cada um. Assim, era natural inserir nas suas histórias, se reais ou não, aquele seu interlocutor daquela hora. O discurso de “Seu Santo” nunca colava com a realidade. No entanto, vivia convencido de que realidade era mesmo o que ele falava. Compreende-se porque sua consciência não doía, suas falas não o incomodavam, sua realidade era a verdade. “Seu Santo”, era curioso, aparecia por uns tempos e sumia noutros. Por vezes, demorava a aparecer. Levantava-se a hipótese de que teria morrido. Quando menos se esperava, aparecia de novo. Perguntado de onde viera e por que tinha sumido, ele dava uma resposta que era impossível saber se estava dizendo a verdade. Talvez sim, mas a verdade que ele considerava como realidade.
Assim foi por muitos anos. Até quando sumiu de vez. Certamente, morreu. Quando se morre se desaparece, de vez, destes cenários que hospedam a verdade que se considera, segundo os próprios critérios, como realidade que se compõe, não raramente, de muitas camuflagens. E assim, de tempos em tempos, lá vinha “Seu Santo”. Fazia ponto na janela da cozinha da escola. Falava muito, contava casos. Nunca se sabia o que era verdade. A realidade do que falava tinha tão simplesmente a sua medida. Era impossível saber se era verdade o que dizia. Era chamado de “Seu Santo”. Na verdade, não era santo. Talvez tenha sido um santo, um santo a seu modo. Um santo na medida do seu sentido de realidade. Uma realidade que ninguém conseguia saber se era verdade. Certamente, não era santo à luz dos critérios que definem os santos. O santo que é santo tem um refinado sentido da realidade. O santo faz exatamente o caminho inverso do pecador ou do alienado quando lida com a realidade. Não a camufla e não permite sua maquiagem. O Santo sabe muito de si, embora não tudo o que se possa saber do si mesmo de cada um. Mas, sabe muito de si. Por isso mesmo tem uma consciência muito profunda do próprio limite e se inquieta com a necessidade de viver intensos processos de conversão, alcançando níveis de intensa bondade e de comprovada fidelidade.
O conhecimento profundo da realidade, de si mesmo e dos outros, e uma corajosa inserção nela, compreendendo sua complexidade e desafios, comprova o ser santo de cada qual. Este diz a verdade. Só a verdade vale. Viver é viver para procurá-la a todo custo. O gosto do viver é ajustar a vida compreendida como autêntica na medida em que é fidelidade à verdade. A verdade que se diz, a verdade que se vive. Um viver apurado no cadinho do confronto permanente com a verdade. Uma verdade que está para além das costumeiras reduções que dão à verdade o tamanho da realidade que se elegeu como verdadeira. Ainda quando esta realidade é apenas uma camuflagem para sustentar privilégios, justificar falcatruas, adoçar os incômodos advindos das exigências da verdade verdadeira.
Não são poucas as exigências para ser santo de verdade, e não apenas poder ser chamado de “Seu Santo”. Poder ser chamado de “Seu Santo” é sempre possível. Ser “Seu Santo” é ter a chance de configurar a realidade do jeito próprio e fazer valer ainda que não seja a verdade. Ser Santo é um outro caminho. Um outro caminho diferente do modo de “Seu Santo” lidar com a realidade. O ser de “Seu Santo” parece ser o retrato de uma sociedade que camufla a realidade, trocando tudo, fazendo valer o que não é, dando nomes que não correspondem, camuflando tudo para suportar as inquietações e maquiando cada coisa para conservar os lugares conquistados, as comodidades adquiridas. Nela vale uma verdade que não é verdade. É hora de recompor a realidade, caminhando na justiça, na coragem de desprezar benefícios extorquidos que subornam. É hora de dizer a verdade!
*Dom Walmor Oliveira de Azevedo é Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte
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