O Filioque (procedência do Espírito Santo do Pai e do Filho) foi muito controverso na Igreja antiga, resultando com cisma bizantino em 1054, pois para os os cristãos orientais (Igreja Ortodoxa), o Espírito Santo procede do Pai pelo filho.
Este foi o tema de uma discussão esta noite e me levou a escrever este artigo que lhes apresento.
O Evangelho nos diz que o Espírito Santo procede do Pai (Jo 15, 26). No ano de 381, o Credo niceno-constantinopolitano reafirmou esta profissão de fé.
Vamos refletir sobre o que nos diz a Palavra de Deus:
"Receberá do que é meu e vô-lo anunciará" (Jo 16,14s)
"Quando vier o Paráclito, que vos enviarei de junto do Pai" (Jo 15,26).
Santo Agostinho nos coloca que em Deus há uma só essência e só podemos distinguir as pessoas da Trindade onde há relativa oposição nas premissas de procedência.
Sendo assim, se apenas o Filho e o Espírito Santo procedem do Pai (pois tudo procede do Pai), não haveria como distinguir o Filho do Espírito Santo, pois não existe oposição relativa na premissa.
Entretanto, a distinção entre o Espírito Santo e o Filho está justamente na oposição relativa da procedência do premissa inicial (que procede do Pai), em que o Espírito Santo procede também do Filho.
Históricamente, o primeiro credo que inclui a partícula do filioque data do século IV pelo Papa São Dâmaso.
Também em Concílios Regionais, como os de Toledo, Braga e Merídia, o filioque também foi adotado.
Com a grande difusão do filioque na Igreja Romana, surgiram alguns teólogos que não aceitavam esta crença.
A Igreja de Roma aceitava a crença no filioque mas se recusava de utilizá-la na fórmula do credo niceno-constantinopolitano, por respeito aos gregos, sobretudo com o crescente distanciamento com eles (que já almejavam transformar Constantinopla na "nova Roma").
Como Carlos Magno tinha amistosas relações com o Califa Haroum, havia monges latinos em Jerusalém e certa vez, ao recitarem o credo com o filioque, foram acusados de heresia e agredidos pelos monges gregos.
Logo os monges latinos levaram a questão ao Papa Leão III, que escreveu uma encíclica onde afirmava que o filioque era parte da Fé Católica e enviava o credo ortodoxo (sem o filioque) a eles, e pedia que fosse guardado como símbolo da Fé.
Com a contínua propagação do filioque, sobretudo após o Concílio de Anquisgrano em 809, o Papa Leão III , recebendo os documentos conclusivos deste Concílio através de seus delegados, reafirmou o filioque mas impediu novamente que fosse incluído no credo.
Demonstrando a prudência da Igreja, a fim de não fazer com que o povo pudesse acreditar que o filioque havia sido proibido, orientou para que pouco a pouco deixassem de utilizar a partícula no credo, para assim cair em desuso.
No entando a partícula do filioque continuou sendo utilizada no credo das igrejas latinas, e para testemunhar a comunhão entre a Igreja Romana e Grega, o Papa Leão III mandou que fossem colocadas duas placas de metal, com o credo niceno-constantinopolitano em grego e em latim, no altar mor de São Pedro.
Mas a tensão se iniciou verdadeiramente quando um comandante da guarda imperial de Constantinopla, Fócio, tomou o Patriarcado Constantinopla de Inácio e, movido por grande ambição para ter a Primazia da Igreja, que pertencia a Roma, atacou os latinos, dizendo que, se o credo diz que o Espírito Santo procede do Pai, então Ele procede somente do Pai, utilizando-se de fraca lógica.
Com a destituição de Fócio por uma revolução palaciana, Inácio retomou o Patriarcado de Constantinopla.
No ano de 870 foi realizado o oitavo Concílio em Constantinopla, onde Fócio foi excomungado e foi reestabelecida a comunhão entre a Igreja de Roma e de Constantinopla.
Mas novamente em 879, Fócio tomou o Patriarcado de Constantinopla e reuniu um Sínodo onde rejeitou o anterior.
Com a morte de Fócio, em 898, mais uma vez a comunhão foi reestabelecida, ainda que bastante fragilizada, permanecendo até 995 quando o Patriarca Sísimo retomou a oposição aos latinos, resultando no cisma que até hoje permanece.
Existem também outros fatores que levaram ao cisma entre a Igreja Católica Romana e a Ortodoxa (como a infalibilidade papal), mas poderemos refletir sobre estes demais fatores em um próximo artigo.
In Domino,
R.M.
Nenhum comentário:
Postar um comentário