Ao encerrar a Semana da Família, é oportuno propor uma reflexão sobre planejamento familiar, uma vez que o termo tem sido utilizado pela Igreja católica há anos, e, nos últimos tempos, vem sendo também proposto por governantes, porém com sentido bem diverso em muitos aspectos.
A lei do Planejamento Familiar do Governo prevê ações preventivas e educativas, integrando o Sistema Único de Saúde (SUS) na execução prática, a fim de garantir a assistência à concepção e a contracepção. Porém, as tentativas de aplicação da lei têm resultado em sérios problemas em relação aos métodos e critérios.
Pílulas e Cirurgias à vontade
As pílulas anticoncepcionais, incluindo a pílula-do-dia-seguinte - que grandes médicos e cientistas provam ser abortiva, como é o caso de dr. Jéròme Lejeune, famoso geneticista descobridor da causa da síndrome de Dawn - são oferecidas não só nas farmácias, mas fartamente nas estações de metrô, ônibus, escolas e shoppings, à maneira de pipocas e caramelos. As operações cirúrgicas de vasectomia e laqueadura, cuja reversibilidade, segundo a medicina, é bastante complicada, estão ao alcance de todos sem problemas e sem custos.
Preservativos para quem quiser
A distribuição indiscriminada de preservativos a quem quiser, sem olhar nem mesmo a idade ou índice de responsabilidade de quem os recebe, sem alertar para os perigos do uso abusivo do sexo, e nem se preocupar com a possibilidade de incentivo à promiscuidade; o material de propaganda disponibilizado a mancheias nos postos; tudo isto não pode deixar de preocupar um sem número de pais e mães responsáveis que ficam boquiabertos, sem saber o que fazer e o que dizer diante de medidas que caem de cima para baixo, vindas do poder constituído.
Aborto
Nem se fale nas campanhas abortistas que procuram encontrar sempre novos argumentos para impor a legalização, tentando convencer que o mal pode se tornar um bem, ou seja, o que era crime agora pode deixar de ser, pois matar uma criancinha no útero da mãe não seria tão grave assim, diriam (!). Argumentos falaciosos como uma tendenciosa pesquisa realizada nos EEUU pelo economista Steven D. Levitt com a conclusão de que o planejamento familiar que inclui a liberação do aborto é um dos mais importantes meios para a diminuição da criminalidade; ou o ingênuo argumento de legalizar os abortamentos, porque eles na prática já são realizados clandestinamente, como se para vencer o crime bastaria torná-lo lícito; ou apelar para a questão do aborto como um problema de saúde pública, enquanto os reais problemas de saúde pública não são resolvidos; ou ainda afirmar que a mulher tem direito sobre seu corpo, esquecendo-se de que o corpo da criança não é parte do corpo da mulher, mas é outra pessoa; tudo isto é muito preocupante e confuso para a população.
Quanto à pesquisa de D. Levitt, o caso é tão grave que o governador do Estado de São Paulo, José Serra, percebendo o problema, mandou retirar do site do Governo este duvidoso argumento de seu artigo antes publicado com participação de assessores. O sr. governador nos comunicou, pessoalmente, via telefone, esta sua louvável decisão.
A Palavra dos Pastores
A CNBB vem alertando a respeito dos perigos de um ‘planejamento familiar’ nestes termos. Pode se aplicar aqui o que diz em seu Documento 80: “Neste tipo de raciocínio é que se percebe a ausência de sensibilidade não apenas com os dramas da vida como também para a própria vida”. E também: “A sexualidade humana, separada do amor e da fecundidade, parece reduzida à produção do prazer, deixando de ser premissa para que um homem e uma mulher entrelacem seus destinos, elaborando um projeto comum de vida, aberto para a procriação e a educação dos filhos, estabelecendo vínculos de comunhão na família”.
Preocupado com a situação, escreveu dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, arcebispo de Sorocaba, em artigo publicado no jornal O Cruzeiro do Sul: “À irresponsabilidade do sexo sem amor se responde com pílulas, inclusive a abortiva, a do dia seguinte, camisinhas, laqueaduras, vasectomias e, em última instância, com o aborto. Educação sexual fica reduzida a informações sobre a biologia do sexo e sobre as formas de fazer ‘sexo seguro’. As escolas serão postos de distribuição de pílulas e de camisinhas. A propaganda consumista continuará a explorar o sexo para vender mais. As empresas produtoras de anticoncepcionais venderão ao Estado, em grande escala, seus produtos e auferirão espantosos lucros. E nossas crianças, adolescentes e jovens aprenderão como viver irresponsavelmente, sem riscos”.
Também, o bispo de Bauru, dom Luiz Antônio Guedes, escreveu em 14 de agosto último, em seu artigo Família em Missão: “No mundo atual, a família sofre toda sorte de pressões e ataques. É missão das famílias cristãs evangelizar as famílias, fortalecendo os laços de amor já presentes no seu interior e colaborando para que elas caminhem sempre mais na direção da sua plena realização... É grande e desafiadora a missão da família cristã: defender a vida desde a concepção até o seu declínio natural; empenhar-se para conseguir condições dignas para todos”.
Dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, em recente artigo, questionava sobre quem cuida da família, como um direito constitucional.
O que fazer?
Uma grande preocupação paira sobre grande parte da população, incluindo o episcopado, manifestada em muitas ocasiões: um planejamento familiar que tem como único objetivo evitar a gravidez indesejada e o contágio de doenças sexualmente transmissível, sem considerar os demais aspectos e problemas, inclusive os éticos e morais, é um verdadeiro serviço à população?
(Publicado no Jornal "O Verbo" , órgão informativo da Diocese de Jundiaí - nº 252)
Dom Gil Antônio Moreira, Bispo Diocesano de Jundiaí e colabora com artigos neste site.
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