Prosseguindo a descrição das emocionantes experiências na Terra Santa, trataremos hoje do ponto final e mais importante da peregrinação. Subindo de Jericó, situada a 250 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo, para o altiplano de 770 metros acima do mesmo nível, entra-se na cidade santa de Jerusalém.
Ali se encontra o principal lugar para os cristãos, o mais histórico para os judeus e o segundo em importância para os muçulmanos. Lá se passaram os momentos de maior significação da vida e pregação de Jesus, sua paixão, morte e ressurreição.
Para os judeus, é a cidade onde reinou David, no ano 1000 a.C., além de guardar a rocha de Moriah, local em que Abraão, salvo por um anjo, quase sacrificou seu filho Isaac em oferta a Deus. Sobre esse monte, Salomão construiu o suntuoso templo no ano 960 a.C. Esse templo foi destruído pelos Caldeus em 587 a.C. por ordem do rei Nabucodonosor, foi reconstruído sem a pompa original por Zorobabel em 516 a.C., foi ricamente reconstruído por Herodes o Grande nos tempos de Jesus e teve sua destruição total no ano 70 d.C. pelo exército romano do Imperador Tito. Hoje, ali se encontra a Mesquita de Omar, califa dos árabes que conquistaram Jerusalém no ano 637 d.C.
Para os muçulmanos, o lugar é o segundo em importância - o primeiro é Meca, na Arábia - porque sobre aquela rocha teria Maomé tido uma experiência mística e subido por alguns instantes ao céu.
Para os Cristãos, embora o templo de Jerusalém seja lugar de várias importantes passagens do Evangelho, tanto referentes à atuação de Jesus, como dos Apóstolos e de Paulo, o lugar mais importante da cidade santa é o Calvário, onde se deu a morte redentora de Cristo e sua ressurreição. Ali se encontra hoje uma enorme basílica de origem muito antiga, chamada pelos latinos de Santo Sepulcro e pelos gregos de Anástasis, isto é, lugar da ressurreição. A primeira construção foi feita por Santa Helena, mãe do Imperador Constantino no ano 326, sob o lugar venerado pelos cristãos desde o princípio.
No tempo de Jesus, esse pequeno monte, de não mais de 10 metros de altura, de formação rochosa, ficava fora dos muros da cidade, onde se executavam condenados à pena de morte. Era chamado pelos judeus de Gólgota, o que significa ‘lugar da caveira’, porque tinha formato de um crânio, o que deu origem ao termo calvário no idioma português. Ali se ergueu a cruz de Cristo, pela condenação injusta de Pôncio Pilatos e pela incitação de judeus que não O aceitaram como Messias. Ali, a poucos metros do lugar da cruz, encontra-se o túmulo que José de Arimatéia ofertou para que Jesus fosse sepultado. Ali, o Senhor ressuscitou no terceiro dia, aparecendo a Maria Madalena e depois aos Apóstolos e outros seguidores seus. Ali o sangue redentor do Divino Mestre foi derramado para salvação da humanidade e o mundo foi recriado para que todos pudessem reencontrar o paraíso que o Pai preparou para todos.
Para se chegar piedosamente ao Santo Sepulcro, há um antigo costume de ir em oração desde a Torre Antônia, residência oficial de Pilatos, onde Jesus foi condenado. Nas escavações arqueológicas, se descobriram, anos atrás, restos de pavimento que podem ser o chamado litóstrotos (calçada de pedras) no Evangelho, onde Jesus foi flagelado e coroado de espinhos. Dali, se sai em Via-Sacra, por um caminho aproximativo do que percorreu Jesus, até chegar ao lugar da ressurreição. No percurso foram construídas, através dos tempos, 14 capelinhas recordando os últimos e dolorosos momentos da vida de Cristo, onde se pára, a fim de rezar e meditar. Destas 14 estações, 9 são bíblicas e 5 são oriundas da piedosa devoção popular, deduzidas das narrativas do Evangelho, a saber, as três quedas, e os encontros com Maria e com a Verônica.
O trecho atual passa por vias públicas, às vezes cheias de comércio árabe, de pessoas que não crêem em Cristo, o que torna penosa a oração, recordando que também foi assim para Jesus quando levava a sua cruz, sob a insensibilidade dos que passavam e nele não criam.
Esse percurso é aproximativo porque, depois dos fatos da Paixão de Cristo, Jerusalém foi destruída no ano 70, foi reconstruída de forma diversa por Adriano em 135 (este Imperador a chamou de Aelia Capitolina) e passou por transformações depois da invasão árabe. Porém, estudos históricos revelam ser esse caminho bem próximo do original.
Em Jerusalém, Jesus, em criança, foi apresentado no templo, foi encontrado, aos doze anos, entre os doutores; curou doentes, cegos e paralíticos. Expulsou os vendilhões do templo, fez pregações contundentes, acolheu estrangeiros, como os gregos de Lucas 21,37-38, perdoou a pecadora pública de João 8,2-59.
Em Jerusalém, Jesus entrou triunfalmente, pela Porta Áurea, para iniciar a Paixão com a qual nos salvou, como vítima expiatória. Lá, Jesus institui a Eucaristia, doce maná e eterno testamento, na última Páscoa que celebrou com os seus discípulos, na sala superior da residência de um amigo, hoje chamada Cenáculo. Neste mesmo lugar, nasce a Igreja com a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos e Maria, Mãe de Jesus. Dali, saem os discípulos imbuídos da força do alto, para irem por todo mundo, pregar o Evangelho e batizar os que cressem, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Naquele santo lugar, iniciou o caminhar histórico da Igreja, a comunidade dos que crêem e procuram, humilde e corajosamente, seguir as pegadas do Divino Mestre, peregrinando nesta terra com os corações voltados para a Jerusalém Celeste que o Pai, desde a eternidade, preparou para todos os que o amam.
(Publicado no Jornal "O Verbo" , órgão informativo da Diocese de Jundiaí - nº 254)
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