domingo, 23 de setembro de 2007

Tira as Sandálias, Pois este Lugar é Santo

A prática de rezar em lugares santos é usual no cristianismo desde os primeiros tempos. O próprio Cristo fez peregrinações a Jerusalém, como aquela dos seus 12 anos de idade na qual ficou no templo discutindo com os doutores, enquanto Maria e José aflitos o procuravam. Os evangelistas narram a paixão, morte e ressurreição do Senhor dentro do ambiente de uma destas viagens religiosas por ocasião da Páscoa.

As peregrinações à Terra Santa, como as de Etéria, cristã européia do século IV, além dos benefícios espirituais para a época, prestam ainda hoje excelente serviço à pesquisa histórica e são indispensáveis para a localização dos lugares por onde Jesus andou e onde se deram os primeiros eventos da Igreja na época imediatamente sucessiva à de Cristo. Etéria fez apontamentos diários utilíssimos para os trabalhos arqueológicos atuais.

Tive oportunidade de fazer, dias passados, três peregrinações que me resultaram em graças inestimáveis e contribuíram para o aprofundamento dos estudos bíblicos e religiosos. Comigo estavam um sacerdote e cinco seminaristas da Diocese de Jundiaí. Roma, Santuário de São Gil, na França e a Terra Santa compuseram a tríplice romaria.

Em Roma, visitamos o sepulcro de Pedro e participamos da missa de 29 de junho, presidida por Sua Santidade Bento XVI. Na ocasião, cinco arcebispos brasileiros receberam o Pálio (insígnia dos metropolitas) entre dezenas de outros vindos de várias partes do mundo. Celebrar a catolicidade, ou seja, a universalidade eclesial, é algo que edifica, anima na vivência da fé e aumenta o amor à Igreja.

Estivemos no sul da França, em lugar que a mim toca de forma especial. Trata-se da igreja abacial de São Gil, fundador de mosteiro do século VII. São Gil, ou Egídio (trata-se de duas versões do nome latino Aegidius), faleceu no dia 1º de setembro do ano 721 (ou 722), depois de uma vida de santidade, na contemplação de Deus. Era, a princípio, eremita, e ao ser ferido por uma flecha disparada involuntariamente pelo rei Wamba caçador, recebe daquele monarca a ordem de fundar a abadia. Hoje, ali se encontra a cidade de Saint Gilles, pertencentes à Diocese de Nimes. Ali pude rezar junto ao sepulcro do Santo cujo nome me foi doado na pia-batismal. Ao lado de Saint Gilles está, a 25 km, a cidade de Avinhão, onde a visita ao Palácio dos Papas ampliou conhecimentos sobre o importância histórica do século XIV.

O ponto máximo da peregrinação se deu nos oito dias sucessivos, à terra de Jesus. Tendo passado pelo Monte Carmelo, onde celebramos a memória da Virgem Mãe de Cristo, e aprofundamos estudos sobre o Profeta Elias, nos dirigimos a Nazaré, onde o Verbo de Deus se encarnou no seio virginal de Maria. Foi emocionante caminhar nos mesmos caminhos percorridos pelo Menino Deus, por Maria e por José, nas escavações arqueológicas que puseram a lume os espaços daqueles tempos.

Em Caná, visitamos o local do primeiro milagre de Cristo, importante para se entender a doutrina da intercessão dos santos, pois o sinal foi feito por pedido de Nossa Senhora.

Ponto de altíssima significação foi a visita ao lago de Tiberíades, onde se passou a maior parte da ação evangelizadora de Cristo. As escavações arqueológicas de Cafarnaum revelaram a casa de Pedro, sede de apoio à ação de Cristo na região. Tabga, com antiqüíssimos restos de uma igreja já encontrada por Etéria no século IV, recorda o local da multiplicação dos pães. O Monte das Bem-aventuranças com sua igreja octogonal é marco do que se encontra hoje nos Evangelhos, sobretudo nos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus, como um único sermão, mas que a exegese afirma ser muito mais uma composição de vários ditos de Jesus em ocasiões diversas que o evangelista reúne num único discurso.

Pessoalmente, fala-me de perto, por tratar-se de meu lema episcopal, o local comemorativo do primado de Pedro, celebrado hoje com a construção de uma Igreja feita pelos frades franciscanos em 1933, sobre as bases de uma outra igreja do século IV, em cima da rocha aparente chamada “Mensa Domini”, situada à margem do lago. O local é venerado em referência ao sublime diálogo entre Cristo e Pedro: Pedro, tu me amas? Sim, Senhor, Tu sabes todas as coisas; Tu sabes que eu te amo! (Cf. Jo 21,17).

Indo para o sul pudemos visitar Jericó com seu sicômoro, ao qual subiu Zaqueu para ver o Senhor, passamos pelo deserto onde Cristo venceu o demônio nas três tentações e nos dirigimos para Belém, cidade de Davi, onde Jesus nasceu. Com vários grupos de muitas partes do mundo, celebramos piedosamente a Missa própria do Natal, na gruta da natividade. Foi lindo cantar o "Noite Feliz", cada grupo em seu idioma.

Porém o ponto culminante da peregrinação foi Jerusalém. Sobre isto, trataremos no próximo número.

(Publicado no Jornal "O Verbo" , órgão informativo da Diocese de Jundiaí - nº 253)


Dom Gil Antônio Moreira,
Bispo Diocesano de Jundiaí e colabora com artigos neste site.

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