sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Dever de cada um

Todos nascemos para a liberdade. Ela, porém, é uma conquista, não pouco árdua. Fugir das amarras de nós mesmos exige contínua exercitação. Discernimento, renúncias, opões para valores maiores e perseverança na busca do ideal são indispensáveis. Podemos escolher o mais cômodo, sem forjarmos nossa vontade para querermos continuamente o mais apto a nos tornar pessoas de bom caráter. Fôssemos ilhas, sem convivência com os outros, colocaríamos todo nosso esforço para endeusarmos nosso ego. Há quem faça isso.

Na realidade, somos membros da sociedade. Isto exige de nós relacionamento afetivo, com equilíbrio na convivência. A parceria fraterna torna-se essencial. Cada um é chamado a realizar o próprio esforço de colaboração com o bem de todos. Nossa liberdade é proporcional ao serviço de uma boa convivência traduzida na justiça e na misericórdia. A valorização do outro nos torna co-responsáveis com o seu bem, mesmo custando-nos sacrifício e doação.

Nossa confiança em Deus nos coloca na segurança de obter liberdade. Ele nos presenteia com o dom do amor, avesso a toda forma de egocentrismo. A fonte do amor é inesgotável, a ponto de haver, por parte do Criador, doação plena de si para o bem de toda a criatura. À semelhança d'Ele, colocamos nosso ser em disponibilidade para darmos de nós gratuitamente em benefício do semelhante. Isto nos torna livres, porque amamos de verdade. Quando somos capazes de amar de verdade, conforme o exemplo e a proposta do Senhor do universo, somos capazes de cumprir nossa missão, no dever de sermos humanos e justos para com o próximo.

Não teremos feito se não o próprio de nossa situação de criaturas, conforme Jesus nos diz. "Quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer" (Lc 17, 10). De fato, cada um, cumprindo seu dever, como o empregado em relação à sua função de servir, percebe sua verdadeira missão de ser humano. Ninguém é senhor dos outros, das riquezas e de toda a natureza. Somos apenas administradores e servidores. Quem se julga dono absoluto de tudo incorre na injustiça de se colocar no lugar de Deus. Temos deveres muito grandes em relação ao semelhante. Trabalhar para o convívio saudável e realizador para cada um é nossa missão.

Quando alguém da Família, por exemplo, estiver passando necessidades, os outros membros devem ser solidários em relação a ele. Ao contrário, os outros dirão mal dessa Família. Na verdade, temos uma situação vergonhosa na Humanidade, contemplando riquezas concentradas e muita gente vivendo na exclusão social. Isto denota o não compromisso com o bem da Família Humana por parte de quem é egocentrista.

Diante da situação de violência e de calamidades na época do profeta Habacuc, Deus lhe disse. "Quem não é correto vai morrer, mas o justo viverá por sua fé" (Hab 2, 4). De fato, a fé desenvolvida para realizarmos o projeto de Deus a nosso respeito produz frutos de bem-estar no convívio humano. Se ela for empregada apenas como busca de vantagens pessoais não produz obras de bem ao semelhante. Coloca a pessoa como morta para o bem. Ela faz milagres, quando assumida como dom de Deus para o amarmos e servimos o semelhante.

* Dom José Alberto Moura é arcebispo de Montes Claros (MG) e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral (CEP) para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso e Vice-Presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic).

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