sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Sacramento do Amor

Belíssima e utilíssima a Exortação Apostólica Pós-Sinodal, “Sacramentum Caritatis”, do Papa Bento XVI, dada a público no último dia 22 de fevereiro! Trata-se de um roteiro de instruções e orientações práticas sobre a Eucaristia, base, centro e cume da vida da Igreja. Dividida em três partes, trata da Eucaristia como ‘Mistério Acreditado, Mistério Celebrado e Mistério Vivido’.

Completo! Todos os aspectos são ricamente contemplados. O documento aborda a parte teórica, com pensamentos teológicos de incontestável consistência e aspectos práticos apontados pelos padres sinodais de 2005 que contribuem singularmente para o pastoreio dos bispos, presbíteros e diáconos, e dá aos leigos visão clara e animadora sobre a sublime questão. A primeira encíclica de Bento XVI, “Deus Caritas Est” (DCE), é já um hino ao amor de Deus que culmina na doação de seu Filho para a Salvação do mundo e põe a base única para a vivência comunitária e individual dos humanos. O mesmo Cristo que morre na cruz é o que ressuscita e permanece vivo na Eucaristia, pão para vida do mundo. Naquela substancial encíclica, o Beatíssimo Pai ensina que “a Eucaristia arrasta-nos no ato oblativo de Jesus. Não é só de modo estático que recebemos o ‘logos’ encarnado, mas ficamos envolvidos na dinâmica da sua doação” (DCE, 13).

A Eucaristia perpetua o ato de oferta de Cristo na cruz e o derramamento de seu sangue para a salvação da pessoa humana, como afirma o Papa: “Jesus deu a este ato de oferta uma presença duradoura através da instituição da Eucaristia durante a Última Ceia. Antecipa a sua morte e ressurreição entregando-se já naquela hora aos seus discípulos no pão e no vinho, a si próprio, ao seu corpo e sangue como novo maná” (DCE, 13).

Chamou-me particular atenção o capítulo da Exortação Apostólica em que o Santo Padre trata sobre a nova e eterna aliança no sangue do Cordeiro. As ceias e os sacrifícios do Antigo Testamento, a ação de graças que os hebreus chamavam de Berakah, tudo acontece como real, mas ainda como figura, pois o cordeiro que é sacrificado sobre os altares da velha aliança morria de verdade, mas não era capaz de realizar redenção. O Corpo de Cristo imolado na cruz é a verdadeira oferenda que pode redimir, libertar e salvar. A figura deu lugar à Verdade (Figura transit in veritatem). A Berakah dá lugar à grande ação de graças da Última Ceia, quando Jesus antecipa o sacrifício de sua morte, mas antecipa também a vitória sobre a morte, ou seja, a sua ressurreição.

Mas a memória aqui não olha somente para trás, mas volta seu rosto também para o futuro, pois antecipa a glória celeste, a posse plena de Deus. Belíssima a expressão do Santo Padre na Exortação: “Ele nos arrasta para dentro de Si”! Isto é iluminador para se entender com o coração o mistério da Eucaristia.

Quando o Senhor morre na cruz, deixa-se vencer, como que faz uma reviravolta contra si mesmo, para assumir plenamente nossa humanidade e salvar-nos de verdade. De seu lado aberto saem sangue e água. A água jorra como símbolo do batismo que lava e purifica do pecado; o sangue que é derramado é a Eucaristia que alimenta e fortalece.

Esta unificação plena e sublime entre a cruz e a ceia, entre o pão e corpo, o vinho e o sangue, é a novidade do Novo Testamento trazida por Cristo. A dor e o sofrimento de Cristo resumem as dores e os sofrimentos da humanidade, a morte e a solidão assumem a morte e a solidão de todo homem; mas também a ressurreição e a vitória trazem dentro de si a ressurreição e a vitória de cada um de nós que cremos. Ó sublime amor de Deus que é capaz de desafiar todas as regras da insignificância humana só para salvar a sua criatura!

Mais belo ainda é constatar que o ato eucarístico e oferente de Cristo não ficou preso aos limites do passado nem encerrado no espaço geográfico de então, mas se estende por todos os tempos da história e pervaga por todos os lugares onde se encontrem dois ou três que celebrem como Igreja os santos mistérios da Redenção. É como se estivéssemos lá com os Apóstolos, disse João Paulo II na Encíclica “Ecclesia de Eucharistia”, e o enfatiza aqui Bento XVI: “De fato o memorial do seu dom perfeito não consiste na simples repetição da Última Ceia, mas propriamente na Eucaristia, ou seja, na novidade radical do culto cristão” (Sacramentum Caritatis, 10). Por isso, o texto pós-sinodal volta a recordar o valor da celebração eucarística dominical a que os cristãos desde o princípio nunca renunciaram. Certamente, todos os que cremos em Cristo, neste primeiro dia da semana, sentimos que tudo em nossa volta toma novo sentido, e até mesmo o sol parece brilhar diferente e, se chove, a chuva parece não ser a mesma, os movimentos, as palavras, tudo se reveste de um ar festivo singular, pois é dia do Senhor. Eis a força e a beleza da fé.

Para nós que cremos, o primeiro dia da semana é a festa de um novo tempo. Por isso afirma Bento XVI na exortação: “O dia em que Cristo ressuscitou dos mortos, o domingo, é também o primeiro dia da semana, aquele em que a tradição do Antigo Testamento contemplava o início da criação. O dia da criação tornou-se agora o dia da ‘nova criação’, o dia da nossa libertação, no qual fazemos memória de Cristo morto e ressuscitado”.

Na verdade, o que se experimenta ao se celebrar a Santa Eucaristia, não é outra coisa senão aquilo que este maravilhoso documento registra em seu número 84: “Não há nada de mais belo do que ser alcançado, surpreendido pelo Evangelho, por Cristo. Não há nada de mais belo que conhecê-lo e comunicar aos outros a amizade com Ele”. Celebremos, à luz deste novo ensinamento do Magistério, os santos mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor na Semana Santa que se aproxima.

Dom Gil Antônio Moreira, Bispo Diocesano de Jundiaí e colabora com artigos neste site.

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